Perdoar é sair da identidade do sofrimento
Nem toda ferida deseja cicatrizar. Há dores que se tornam morada, quase identidade, como se nelas residisse uma forma de permanecer fiel ao que aconteceu. O perdão, nesse contexto, não é um gesto espontâneo, mas uma ruptura delicada: ele desestabiliza essa identificação silenciosa com a dor. Não se trata de negar o que foi vivido, mas de recusar que o passado continue a falar sozinho dentro de nós. Há algo de inquietante no perdão porque ele nos desloca do lugar de vítimas absolutas e nos devolve à responsabilidade de existir para além da ferida. Esse movimento não inocenta o outro, mas liberta o sujeito de uma repetição que o aprisiona. Perdoar, quando possível, é abrir espaço para que a vida volte a circular — não como antes, mas de um modo novo, menos determinado pelo que feriu e mais aberto ao que ainda pode vir.
René Dentz
7/4/20261 min read
